Precificação em usinagem: muito além da hora-máquina



Calcular o preço a ser cobrado por um produto ou serviço não é das tarefas mais simples. Vários itens precisam ser levados em consideração, e bem calculados, para que o valor daquele produto ou serviço não fique tão baixo, que gere prejuízos ao fornecedor, nem tão caro, que afaste possíveis interessados. E esta é uma equação fundamental, pois de seu resultado depende o sucesso ou fracasso de um empreendimento.


O que dizer então da atividade de precificar um serviço de usinagem? Quantos itens precisam ser analisados, calculados, estimados para que se chegue a um preço que atenda às necessidades do mercado, ao mesmo tempo em que remunere o prestador de serviços?


“Precificar serviços de usinagem é algo muito complexo, que envolve inúmeras variáveis e vai muito além de estabelecer o custo da hora-máquina”, afirma Thiago Petrone, diretor de Tecnologia da Peerdustry, plataforma de manufatura compartilhada, que faz a intermediação entre indústrias interessadas na compra de peças usinadas e serviços e fornecedores de serviços de usinagem.


Juliano Pallaoro, gerente de Engenharia de Manufatura da Peerdustry, conta que quando foi lançada, há quatro anos, a Peerdustry digitalizou o modelo tradicional praticado no mercado. Ou seja, captando pedidos, enviando os pedidos de cotações para os prestadores de serviços e aguardando o retorno dos orçamentos. Mas logo ficou evidente a grande variação entre os valores apresentados pelos fornecedores.


“Isso porque cada fornecedor tem uma forma de precificar, que vai desde a experiência do orçamentista, muitas vezes fazendo cálculos manuais, até simulações de usinagem em softwares de CAD/CAM. Cada um estima o custo de uma peça de um jeito próprio”, diz Pallaoro. “O custo de uma peça usinada engloba material, processos de manufatura, fretes, custos comerciais, administrativos, serviços terceirizados - como tratamentos térmico, superficial... A hora-maquina é apenas um dos componentes”.


A partir daí, a empresa passou a trabalhar no desenvolvimento de soluções digitais para otimizar o processo de precificação e também da distribuição das ofertas de serviços na própria plataforma. Para tanto, de acordo com Pallaoro, a empresa procurou ouvir os fornecedores e levantar que outras dificuldades enfrentavam neste processo. Como exemplo, cita a estimativa de que, para cada negócio fechado são necessárias cerca de 10 cotações, o que gera um dispêndio grande de tempo, principalmente para pequenas empresas.


“O que percebemos é que as cotações acabam trazendo grande ineficiência para os fornecedores, que são, em grande parte, pequenas empresas familiares, em que o próprio dono faz as cotações e ainda opera a máquina, com resultados que acabam refletidos no ciclo produtivo inteiro e, por consequência, no preço final”, afirma Petrone. “Um dos nossos objetivos, desde o início, era tirar o peso de fazer orçamentos do ombro do prestador de serviços”.




Nesse sentido a Peerdustry desenvolveu vários algoritmos e modelos matemáticos que possibilitaram a “automatização” da precificação. “Criamos alguns algoritmos para precificar diferentes famílias de peças. Cada peça que entra é classificada segundo essas famílias”, informa Pallaoro. Ao mesmo tempo, os fornecedores foram distribuídos em grupos distintos, dependendo do maquinário que possuem, nível de qualidade, complexidade das peças que está habilitado a produzir etc. “Com essa combinação conseguimos saber a qual grupo de fornecedores se destina cada peça que entra no sistema”.


O passo seguinte foi criar um “mural de serviços” com as ofertas de trabalhos disponíveis na plataforma - já precificados. O trabalho do fornecedor é o de entrar na plataforma, visualizar as ofertas de serviços, escolher as de seu interesse e pegá-las, seja por serem lucrativas ou por necessidades momentâneas, como ocupar a sua ociosidade.


O diretor de Tecnologia lembra que, além de facilitar o processo, esses recursos eliminam uma série de custos dos fornecedores. Some-se a isto, o fato de a Peerdustry ter passado também a fornecer o material das peças usinadas (em alguns casos), assim como serviços, caso do tratamento térmico, superficial.


“Nós percebemos que o simples fato de absorver algumas responsabilidades dentro da produção, como a compra do material, além de diminuir a burocracia do processo, reduz os custos dos prestadores de serviços”, diz Petrone. Para o diretor, este é hoje um dos maiores benefícios da plataforma. “O fornecimento do material, assim como do tratamento superficial, do frete e das atividades de compra e venda, tira uma parte do custo do fornecedor e o deixa mais concentrado na manufatura. Este tem sido um habilitador importante de nosso modelo de negócios”.


De acordo com Pallaoro, as novas soluções implementadas pela Peerdustry têm tido boa receptividade na comunidade da plataforma. “Quando ofereço eliminar a burocracia de vendas (e do custo de colocar um vendedor na rua) e ofereço um serviço já precificado, isto é muito bem aceito, pois representam um gasto de tempo muito grande dos fornecedores. Isto livra os fornecedores daquilo que não é o core business deles”, diz, acrescentando que este é um modelo de sucesso já aplicado nos Estados Unidos e em países da Europa e que novas melhorias estão em desenvolvimento.


Com isto, segundo Pallaoro, a base de fornecedores da Peerdustry tem crescido, já superando mais de 400 empresas homologadas. Ao mesmo tempo também está em expansão a base de clientes. A princípio esta base estava concentrada na região compreendida entre a Grande São Paulo, Campinas e São José dos Campos, mas já foi expandida para todo o Estado. “Essa é a região onde atuamos com busca ativa de clientes, mas também temos sido procurados por empresas de outros estados e regiões”.


Fonte: Revista Usinagem Brasil

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